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sábado, 4 de setembro de 2010

Salve, Meu Rei

Eu tenho tanto
Pra lhe falar
Mas com palavras
Não sei dizer
Como é grande
O meu amor
Por você

E não há nada
Pra comparar
Para poder
Lhe explicar
Como é grande
O meu amor
Por você

Nem mesmo o céu
Nem as estrelas
Nem mesmo o mar
E o infinito
Não é maior
Que o meu amor
Nem mais bonito

Me desespero
A procurar
Alguma forma
De lhe falar
Como é grande
O meu amor
Por você...

Nunca se esqueça
Nenhum segundo
Que eu tenho o amor
Maior do mundo
Como é grande
O meu amor
Por você

Mas, como é grande
O meu amor por você...

Roberto Carlos Braga. Votamos na mesma seção eleitoral. Vamos sempre no mesmo horário, faltando 15 minutos para o encerramento. Uma festa para as tiazinhas. 
Ajudei-o na sua concessionária Ford de Mogi das Cruzes, endireitando as coisas com tecnologia adequada. Ganhei bom dinheiro e um beijo. Não precisava da grana, mas adorei o beijo.
Esta canção, hoje, me veste como luva.
Ah, Roberto, me ajude a aprender a viver... 

Chiquinho de Moraes

É pau, é pedra, é o fim do caminho
É um resto de toco, é um pouco sozinho
É um caco de vidro, é a vida, é o sol
É a noite, é a morte, é o laço, é o anzol
É peroba do campo, é o nó da madeira
Caingá, candeia, é o matita-pereira
É madeira de vento, tombo da ribanceira
É o mistério profundo,
                     é o queira ou não queira
É o vento ventando, é o fim da ladeira
É a viga, é o vão, festa da cumeeira
É a chuva chovendo, é conversa ribeira
Das águas de março, é o fim da canseira
É o pé, é o chão, é a marcha estradeira
Passarinho na mão, pedra de atiradeira
É uma ave no céu, uma ave no chão
É um regato, é uma fonte,
                       é um pedaço de pão
É o fundo do poço, é o fim do caminho
No rosto o desgosto, é um pouco sozinho
É um estrepe, é um prego
                          é uma ponta, é um ponto
É um pingo pingando,
                          é uma conta, é um conto
É um peixe, é um gesto,
                              é uma prata brilhando
É a luz da manhã, é o tijolo chegando
É a lenha, é o dia, é o fim da picada, é a
   garrafa de cana, o estilhaço na estrada
É o projeto da casa, é o corpo na cama
É o carro enguiçado, é a lama, é a lama
É um passo, é uma ponte
                             é um sapo, é uma rã 
É um resto de mato na luz da manhã
São as águas de março fechando o verão
É a promessa de vida no teu coração
É pau, é pedra, é o fim do caminho
É um resto de toco, é um pouco sozinho
É um passo, é uma ponte
                              é um sapo, é uma rã
É um belo horizonte, é uma febre terçã
São as águas de março fechando o verão
É a promessa de vida no teu coração
É pau, é pedra, é o fim do caminho
É um resto de toco, é um pouco sozinho
É um caco de vidro, é a vida, é o sol
É a noite, é a morte, é o laço, é o anzol
São as águas de março fechando o verão
É a promessa de vida no teu coração

                                *************************

Vai minha tristeza
E diz a ela que sem ela não pode ser
Diz-lhe numa prece
Que ela regresse
Porque eu não posso mais sofrer
Chega de saudade
A realidade é que sem ela
Não há paz não há beleza
É só tristeza, melancolia
Que não sai de mim
Não sai de mim
Não sai
Mas se ela voltar
Se ela voltar
Que coisa linda
Que coisa louca
Pois há menos peixinhos a nadar no mar
Do que os beijinhos
Que eu darei na sua boca
Dentro dos meus braços os abraços
Hão de ser milhões de abraços
Apertado assim, colado assim,
                        calado assim,
Abraços e beijinhos e carinhos sem ter fim
Que é pra acabar com esse negócio
De você viver sem mim
Não quero mais esse negócio
De você viver sem mim...

                        ****************

Eu sei que vou te amar
Por toda a minha vida eu vou te amar
Em cada despedida eu vou te amar
Desesperadamente
Eu sei que vou te amar
E cada verso meu será
Pra te dizer que eu sei que vou te amar
Por toda a minha vida
Eu sei que vou chorar
A cada ausência tua eu vou chorar
Mas cada volta tua há de apagar
O que esta ausência tua me causou
Eu sei que vou sofrer
A eterna desventura de viver
A espera de viver ao lado teu
Por toda a minha vida

Acho que não esqueci nenhuma estrofe. Não vou falar do Antonio Carlos Brasileiro, o Tom Jobim, porque seria "chover no molhado".
Vou falar do maestro Chiquinho de Moraes, que fez os arranjos das músicas acima, e que é meu amigo.
A história de Chiquinho na Bossa Nova vem de muito tempo, desde o surgimento desse movimento musical. Ele já possuia formação erudita, mas não hesitou em entrar para a música popular, Ele dirigia o programa musical "O Fino da Bossa". Apresentou, no Theatro Municipal do Rio de Janeiro, variações sinfônicas de obras do Tom. Foi, de maestro para maestro, um homenageante extraordinário.
Fez trilhas sonoras de diversas novelas da TV Globo, dezenas de longas metragens, dirigiu discos dos principais artistas da MPB, fez filmes publicitários e comandou espetáculos teatrais. Reje e compõe com perfeição, no Brasil e no exterior. Vai de Roberto Carlos à Chico Buarque - a "Ópera do Malandro" foi orquestrada por ele (apesar do pó, confessou).
Mora num apartamento único por andar, na Rua Renato Paes de Barros, nos Jardins, em São Paulo. O imóvel, de 700 metros quadrados tem uma mobília - falei pra ele - totalmente bizarra. Na sala principal, onde seria possível jogar futebol, há apenas um piano de cauda. Nada mais. 
Com seu bigode desproporcional, ofereceu-me um café. Fomos à cozinha. Minha empregada tem, certamente, uma cozinha mais aparelhada que a dele. Usou uma leiteira amassada e sem cabo para ferver a água. Coou o café num coador de pano completamente esgarçado. Louco, teimava que seria meu professor musical. Nunca conseguimos. Noutra visita, dei-lhe, de presente, uma cafeteira americana "Mr. Coffee".
Certa tarde, ambos vagabundos, estávamos jogando conversa fora, quando o interfone avisou que "Dona Fátima" estava subindo. Era Fafá de Belém. Veio pedir ajuda. Para arranjo de uma nova música e para o dinheiro do táxi. Lembro que Chiquinho tratou os dentes com minha irmã. Nunca pagou. Ela nunca cobrou. Ele ganhava 30 mil pratas numa única apresentação. Gastava tudo no dia seguinte, não me pergunte como.
É maluquinho, mas rejeitou criar os arranjos para as músicas que eu estava tentando negociar com os "Mamonas Assassinas".
- Mamonas o quê?
- Mamonas Assassinas.
- Que diabo é isto?
- Nossa, Chiquinho, em que mundo você vive? Os caras são sucesso absoluto.
Fui até o carro, trouxe o CD deles e coloquei pra tocar. Ao cabo da terceira faixa, ele pediu licença e desligou o aparelho.
- Você gosta disso? - falou espantado.
- Adoro. Todo mundo adora.
- Credo!
O grupo se foi, infelizmente, e minhas letras acabaram trancafiadas para sempre, numa gaveta.

sexta-feira, 3 de setembro de 2010

Cuidado com a Izildinha

Existem dois tipos de mulheres que me amam: As gordinhas, talvez por eu ser magrelo, e as velhinhas, talvez por que eu tenha cara de neto ou porque gostem de transmitir sabedoria, sei lá.
As pessoas mais próximas a mim sabem que já precisei andar armado, por pura segurança. Gracias a Dios este tempo passou. Mas era tudo legalizado: registro, licença, porte. Eu fazia a "sangria" do caixa da minha cantina escolar e levava para o banco. Como a gurizada só paga com dinheiro em espécie, eu andava de malote cheio pela rua. Como a agência com a qual eu trabalhava não tinha estacionamento, o jeito era ir a pé.
Certo dia, estou na fila do caixa, quando uma velhinha, ao passar por mim rumo ao guichê preferencial, percebeu o grosso cabo da minha pistola aparecendo por baixo da minha camisa. Descuido imperdoável. Então, ela parou na minha frente e disparou:
- Meu Deus! O senhor vai assaltar o banco!
- Não, minha senhora, não vou.
- Claro que vai!
- Não, não, pode ficar tranquila.
- Por que alguém vai armado ao banco, se não for para assaltar?
- Senhora, fale baixo.
- Está vendo? Não quer que percebam suas intenções.
Pensei em levar minha arma até o vigia, na companhia da velhinha, para tranquilizá-la. Peguei no ombro dela, e:
- O senhor vai me fazer refém, não vai?
Larguei o ombro imediatamente e olhei para trás. A fila virou um imenso clarão. Todo mundo caindo na maluquice da velha.
- Senhora, eu tenho licença para andar armado.
- Que men-ti-ro-so!  Tome, é tudo o que eu tenho. Só não me machuque - disse me estendendo uns reais.
- Não quero seu dinheiro, minha senhora.
- Ah, quer o graúdo que fica no cofre, né?
- Eu...
Num gesto rápido, ela retirou uma correntinha do pescoço e a atirou no meu pé.
- É de ouro, viu? Todo bandido gosta de ouro.
De repente ela se ajoelhou, uniu as palmas das mãos e começou:
- Ave Maria, cheia de graça, o Senhor é convosco...
Tentei levantá-la pelos braços, mas ela:
- Me larga! Além de assaltar, vai querer me estuprar? Tenho idade para ser sua avó!
Larguei-a imediatamente, outra vez.
A gerente da agência percebendo certo tumulto, veio ver o que acontecia.
- Inês, graças a Deus! Esta senhora está achando que eu vou assaltar o banco...
- Acho, não, tenho certeza! - Falou a velha lá embaixo e prosseguiu - Perdoai as nossas ofensas, assim como nós perdoamos...
- Tome, Inês, guarde a minha arma com você.
- Vocês são comparsas? - A velha replicou lá do chão.
- Sou a gerente da agência, senhora, fique calma.
A velhota girou o corpo para uma funcionária do caixa e viu uma confirmação com a cabeça.
- Hum...Ah...ah...seja cavalheiro, meu jovem, ajude aqui a me levantar.
- É o que eu estava tentando fazer. - falei baixinho com os dentes cerrados.
- Por quê o senhor vem ao banco armado? - Bem que poderia ter sido esta a primeira pergunta dela, saco!
- Para segurança própria, minha senhora, eu transporto valores diariamente. - falei mostrando-lhe meu malote.
- Ah...então o senhor é um homem muito rico, né?
- Não, minha senhora.
- Lógico que é! - Quanto custou seu revólver? É um revólver chique, brilhoso, desses que a gente só vê em filme.
- Não me lembro quanto paguei, desculpe.
- Tá vendo? É tão rico que nem sabe quanto pagou!
- Não sou, por favor.
- Claro que é! Só quem é muito rico transporta tanto dinheiro. Olha o tamanho da sua bolsa. Pensei até que tinha outra arma aí dentro.
- O volume é grande, mas são notas de pouco valor, minha senhora.
- Ah, não tente enganar esta pobre velha. E trate de devolver minha correntinha. Se quiser, pode comprar uma igual ou bem melhor.
Abaxei-me para pegar e tive vontade de arremessar a porcaria no nariz dela.
- Se o senhor não é bandido nem muito rico, o que o senhor é?
- Apenas um comerciante, minha senhora, apenas um comerciante.
- Ah...muito prazer - estendeu-me a trêmula e enrugada mão - meu nome é Izilda, mas pode me chamar de Izildinha. Todo mundo aqui do bairro me conhece. - Imagino!, - pensei.
- Sou André. Olha, o caixa está livre - apontei.
Finalmente, a velha me largou, chegou ao caixa e, na pontinha dos pés, cochichou um pouco alto com a funcionária: "Não é por nada não, mas tome cuidado com o moço de camisa verde ali na fila. Ele é completamente tam-tam".

Livros

Moçada

Atendendo a pedidos, este "come-livros" aqui vai começar a indicar boas leituras.

Começo por:

…O Aleph, de Jorge Luis Borges. Intrigante e genial, como todo livro dele.

Atenção: Não confundir com Aleph, de Paulo Coelho. Comprei e atirei no lixo antes de terminar o primeiro capítulo. É mais boçal que novela das seis.

Satisfação

Amigos

Todos sabem que este blog tem sido minha paixão. Já informei isto num passado recente.
Ontem, recebi uma avalanche de protestos pela anorexia (publiquei apenas 1 texto). Prometi que, ao atingir novas 100 postagens, iria transformá-las em livro com direito a noite de autógrafos na livraria Cultura, regada a bom espumante. Teve leitor que disparou: "Pô, nesse ritmo vai demorar uns 2 anos!".
Exagero, galera.
Apenas confesso que rebaixei (não me xinguem) este blog a minha SEGUNDA paixão.
Mas a causa é nobre. Vou tentar ajudar alguém a descolar seu canudo na "Facu". Talvez me tome certo tempo (do dia, da noite ou da madrugada) e impacte na minha capacidade de postar mais.
Perdoem, queridos. É a vida.
Estou vivo e meu coração está batendo a ponto de fazer a bateria da Beija-Flor de Nilópolis morrer de inveja.  

quinta-feira, 2 de setembro de 2010

Quem É Bom Em Fin-Kido-Jii?

Carlinhos, o único Junqueira pobre que eu conheço, perdeu o emprego. O trabalho era chato, o patrão troglodita e o salário uma verdadeira merreca - vendou-se.
Tirou o primeiro mês para descansar.
Passou noventa dias procurando oportunidade na área dele, publicidade.
Ao cabo do quinto mês já vasculhava outras áreas.
Conversamos quando ele estava perto de aniversariar o ócio. Bateu desespero: "Cara, tô topando até auxiliar de faxina".
Na sua busca diária por recolocação, corria os olhos nos classificados de emprego no jornal, quando se deparou com um anúncio: "Procura-se professor para lecionar Fin-Kido-Jii. Remunera-se bem". Que raios é isso? - pensou. O Google não soube responder. Ligou para um amigo filho de orientais, mas nada. Para outro, idem. Arriscou ligar para o número publicado no jornal.
- Pois não?
- É sobre o anúncio...
- Ah, que ótimo, faz tempo que estou anunciando. O senhor é o primeiro a me procurar. Sabe, não é para mim, é para o meu filho. Ele tem seis anos. Cobra todo santo dia. Pode nos visitar?
Of course que o Carlinhos foi, mesmo sem saber, nem remotamente, o que ia tentar ensinar. Conversando com o pai, percebeu que o sujeito também não fazia ideia do que era o tal Fin-Kido-Jii.
- Mas eu preciso saber qual o...bem, o nível que seu filho quer aprender. Tipo: básico, intermediário, avançado, entende?
- Espere um pouco: Júnior! - berrou - vem aqui conversar com o professor. - o menino apareceu rápido, saindo da sala de TV.
- Explica para ele qual o nível que você quer aprender.
- Star!
- Star? - Carlinhos repetiu visivelmente perdido.
- É, porque Gold, só, não tem graça. Vem aqui ver. - Pegou o "professor" pela mão e o levou até a sala de TV, deixando o pai sentado na sala de visitas.
Foi aí que o Carlinhos descobriu que Fin-Kido-Jii era uma espécie de arte marcial, misturada com superpoderes, que personagens de um desenho animado, sabe-se lá se japonês, chinês ou coreano utilizavam para combater seus inimigos. Ficou ali uns minutos olhando a tela com cara séria, mas lutando para não cair na gargalhada. Gold, o menino foi tagarelando, eram os movimentos corporais. Star incluía flutuar e disparar rajadas de raios cósmicos saídos dos dedos.
Carlinhos voltou para o pai do menino:
- Meu caro, posso ensinar o nível Gold ao seu filho. Ele ainda não tem idade para o nível Star. São duzentos reais a hora.
E assim, Carlinhos sobreviveu mais dois meses, quando, enfim,  conseguiu um trabalho honesto.

quarta-feira, 1 de setembro de 2010

Assinatura Perfeita

Tirei meu RG quando tinha uns 10 anos. Por volta dos 16 perdi todos os meus documentos. Esqueci minha capanga (urgh! Lembram?) num taxi. Tirei a segunda via e caprichei numa assinatura de quase cinco centímetros de extensão, com um monte de laços, voltinhas, sobe-e-desce e vai-e-vem. Achei uma pintura.
Meses depois, comecei minha vida profissional. Recebi o papelório admissional e, obviamente, não consegui repetir a assinatura. Ninguém conseguiria. Sequer era possível desvendar por onde ela começava e muito menos onde terminava. Gilson, o chefe do departamento de pessoal, me deu um prazo para tirar a terceira via - "Desta vez treine e faça algo que você possa repetir, ok?" - Recomendou.
Meu cargo era Arquivista e como o próprio título sugere, passava o dia todo dobrando zelosamente, grampeando e blocando toda a papelada que circulava pela empresa. Um tempo depois reparei numa assinatura que constava no rodapé de um documento prestes a ser arquivado. Achei linda. É esta! - pensei. Comecei a treiná-la: uma, duas, cinquenta vezes. Ficou uma beleza. Já podia me programar para tirar novamente o RG.
Passados uns dias, circulou pela empresa um memorando corporativo (não existia internet, email, nem microinformática) que informava aos funcionários nova regra para pedidos de adiantamento salarial. Todos tínhamos de ler e assinar no verso.
Quando o papel retornou para o departamento de pessoal, Gilson levou um susto: alguém havia feito o documento passar pelo presidente da empresa. Pior, ele o assinara. O chefe do DP sentiu a forca de perto. Como o documento "rodava" de mão em mão (olha a reforma ortográfica matando os hífens da expressão), não foi possível identificar quem havia feito a besteira. A secretária do "homem" não tinha recordação, afinal o executivo assinava quilos de papel todos os dias.
 Sentindo-se sob risco, Gilson resolveu levar o papel e mostrá-lo pessoalmente ao presidente, esperando esclarecer que, evidentemente, ocorrera um lamentável equívoco. "Onde já se viu, o dono tendo de seguir regras para usar o próprio dinheiro? E se ele pensar que fui eu quem enviou? Tou na rua!" 
Surpreso, o presidente, respondeu que não se recordava do documento. "Me deixe ver" - ordenou.
Foi aí que concluíram o pior. Tinha alguém, nos quadros da empresa, falsificando a assinatura dele.
- Descubra!!!
- Imediatamente, doutor!
Não era muito fácil. Uma cópia para cada um dos 20 andares da matriz. Várias filiais pelo país. Escritórios no exterior.
Antes que o chefe pudesse resolver o caso, entreguei a ele minha terceira via do RG.
Quase perdi o emprego, e ainda tive de tirar, pela quarta vez, o maldito documento.  

A Dedicatória

Meu falecido irmão, certa vez, visitou a casa do Paulo Vanzolini, compositor de “Ronda”, a surrada e campeoníssima canção da boemia paulistana. Voltou de lá com um LP surrupiado do músico. Por quê? Além do fato de que ele adorava sacanear os amigos, a capa do exemplar trazia uma dedicatória escrita por Chico Buarque, de quem o mano era fã incondicional.

 
Acabei herdando o vinil e, quando foi aposentado pela era do CD, enviei junto com meu recem ultrapassado aparelho de som para a chácara que minha irmã havia adquirido.
Tempos depois, aproveitando que a propriedade estava deserta, ladrões entraram e roubaram vários eletrodomésticos, incluindo o toca-discos e todos os LPs.

Passados alguns dias, eu estava assistindo a um jornal na TV, quando uma reportagem informou que a polícia havia desmantelado uma quadrilha que assaltava residências no interior.
O camera man aproximou a lente de um amontoado de bugigangas que os bandidos haviam deixado no local. Sobre a pilha, em primeiro plano, pude reconhecer a capa do LP. Quase deu para reler as palavras em caneta azul.

Foi a última vez que vi, ao vivo e a cores, uma dedicatória de próprio punho do Chico. E, convenhamos, Chico é Chico.

Lembranças De Um Ex-Restauranteur - Parte II - "O Sagüi"

É domingo. Chego ao finíssimo Il Sogno de Anarello, do meu amigo Giancarlo Bruno, pouco antes do meio-dia. A casa ainda está vazia. Ele teima em me ensinar a preparar sua Insalata al Mare. Quer, com ar de nobre milanês, que eu a inclua no cardápio dos meus restaurantes.
- Mas, Giancarlo, é só uma salada com frutos do mar.
- Ma che cosa ragazzo, e il mio secreto, non conta?
- Va bene, mi serve una per me di provare, poi.
- Con tutti piacere.

Enquanto espero ser servido, percebo que uma Mercedes estaciona na porta do restaurante e dela desce uma senhorinha muitíssimo bem vestida. O motorista vai embora e o maitre, após recepcioná-la, a conduz à uma mesa colada numa janela-balcão, escondida por uma cortina que ia do teto ao chão.
Para meu espanto, ela trazia nos braços um sagüi, atado a uma coleirinha. Quem, diabos, além de ter um sagüi como bicho de estimação, o leva a um restaurante? – pensei - Isso não é excentricidade, é doideira da boa.

Quando ela se sentou, o bichinho pulou no chão e sumiu para trás da cortina. Um minuto depois, o maitre destacou um garçom, que veio lá do fundo para atendê-la. O rapaz abriu em "V" o pesado cardápio de couro e colocou-o na sua frente. Enquanto ela corria os olhos nas opções, o garçom notou um movimento na cortina e notou os contornos de algum animalzinho de cor escura. Conheço a mente dos garçons. Sei que pensou: É um rato! E não teve dúvidas: pegou outro cardápio e "PAM!" - acertou o bichinho de primeira, que emitiu apenas um "quiiiiiiiii".
A mulher deu um pulo para trás e puxou a guia, trazendo arrastado e já morto o sagüizinho.
Foi um escândalo. Ela aprontou uma gritaria daquelas.

Soube, depois, que foram todos parar numa delegacia e que o restaurante foi processado.
A propósito, a salada do Giancarlo era uma delizia e a incorporei nas minhas casas. 

Lembranças De Um Ex-Restauranteur - Parte I - "Boca de Palhaço"

 Nos anos 90 capitaneei alguns restaurantes, e acabei por conhecer boa parte dos proprietários de outros de padrão internacional da cidade. O motivo era puramente profissional, já que eu precisava manter atualizados e com preços adequados os cardápios dos meus. Trocávamos indicações de fornecedores, prestadores de serviços, currículos de candidatos a funcionários e discutíamos a elaboração dos pratos. Para isto, eu, muitas vezes, almoçava em algum dos restaurantes deles. Eles faziam o mesmo comigo. E escolhíamos o momento de maior movimento, obviamente, o almoço de domingo, para medir e opinar sobre a qualidade do trabalho dos empregados em horário de pico. Era o tal “benchmark de mercado”.
Presenciei centenas de cenas lamentáveis, com clientes de alto poder aquisitivo destratando funcionários que apenas queriam fazer seu trabalho. Mas também vi muitas passagens hilárias, dessas que a gente não esquece mais.

Certo domingo, decidi visitar o então famoso Via Veneto, restaurante italiano que, infelizmente, não existe mais. Aos domingos, a casa, com mais de 200 lugares, “girava” 3 vezes no almoço, jargão técnico que aponta quantas vezes cada mesa é ocupada sequencialmente. A clientela aceitava enfrentar mais de hora de espera e olha que a judeusada que orbita Higienópolis é bem pouco paciente.
Naquele dia, com bastante movimento, percebo que 2 garçons estavam servindo as mesas, ambos, com os lábios completamente azuis. Cada um atendendo um lado do enorme salão. Chamei o Roberto, o proprietário, pelo celular:
- Beto, desce do escritório. Tem 2 garçons seus circulando com as bocas completamente azuis. Acho que o maitre ainda não percebeu.
- Não, deixe-os pagar esse mico.
- Por que?
- Esses 2 safados aproveitam nossa distração para irem ao estoque beber escondido em pleno horário de trabalho. Então eu passei azul de metileno na boca das garrafas que eles preferem, desliguei o disjuntor para que eles não vejam e jurei a alma de qualquer outro funcionário que pense em avisá-los.

Deixei o local mais de hora depois e ambos continuavam, inocentemente, trabalhando com suas bocas de palhaço.